SIMONE JUDICA - SÃO-ROQUICES

ROSA KLIASS: ROSINHA DE SÃO ROQUE AJARDINA O MUNDO

Rosa Grena Kliass

Por: Simone Judica*

 “O livro da Rosa: vivência e paisagens”

No último sábado, 15 de fevereiro, o saguão do Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, foi palco do lançamento da obra literária “O livro da Rosa: vivência e paisagens”, que narra a trajetória pessoal e profissional da arquiteta paisagista são-roquense Rosa Grena Kliass, hoje com 87 anos de idade, reconhecida internacionalmente como uma das personalidades mais importantes na área de projetos e planejamentos paisagísticos modernos e contemporâneos.

Instituto Tomie Ohtake (Foto: Alexandre Vitor Andrade)

Organizado pelas arquitetas Lucia Maria Sá Antunes Costa e Maria Cecília Barbieri Gorski, “O livro da Rosa” tem origem em uma pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi produzido a partir de uma série de entrevistas e depoimentos coletados no Brasil e no exterior, em que Rosa Grena Kliass, seus familiares, amigos, clientes e profissionais que a cercaram por quase noventa anos anos proporcionam uma bem encadeada reconstrução cronológica, rica e original, não apenas da sua vida pessoal, acadêmica e de trabalho, mas, também, um importante registro histórico da imigração judaica para o interior de São Paulo, do avanço do protagonismo feminino no século XX e do desenvolvimento do paisagismo como um ramo importante da Arquitetura e do Urbanismo.

Rosa ao lado do filho Paulo Kliass. Atrás, a partir da esquerda, Lúcia Costa, Simone Judica, Michel e Ciça Gorski

A editora Romano Guerra caprichou ao elaborar “O livro da Rosa” – recheado com expressivos retratos de família, memórias afetivas, fotografias de momentos e lugares marcantes, desenhos e projetos – e oferece aos leitores, numa bela edição, os fragmentos da jornada destemida de uma mulher de vanguarda, que soube lançar-se e conquistar espaço num universo antes apenas masculino sem abdicar da delicadeza e da feminilidade que caracterizam aquela Rosinha, dos tempos de menina, em São Roque, que nunca ficou no passado, mas habita e palpita, perenemente, na alma da grande Rosa Kliass.

“O livro da Rosa: vivências e paisagens” revela uma flor de São Roque – Rosinha – a ajardinar o mundo.

A coluna São-roquices acompanhou, com exclusividade, o lançamento do livro.Confira no vídeo a mensagem de Rosa Kliass aos são-roquenses:


A dama do paisagismo brasileiro

Rosa Grena Kliass é considerada, nos meios profissional e acadêmico, a arquiteta paisagista mais importante do Brasil em atuação, muitas vezes intitulada a dama do paisagismo brasileiro. Formou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU-USP em 1955, numa turma com apenas três mulheres.

Mãos de artista, incansáveis em desenhar paisagens

Tem colecionado diversas honrarias, premiações e homenagens ao longo de sua carreira, dentre elas uma sala especial na VI Bienal Internacional de Arquitetura em São Paulo, de 2005, e o reconhecimento como uma das três arquitetas paisagistas mais importantes das Américas pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Em seu percurso profissional se encontram a liderança na fundação da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas – ABAP (1976), entidade que presidiu por vários anos, de modo a  contribuir para a valorização dos profissionais em paisagismo no Brasil, e sua participação na Associação de Municípios do Vale do Paraíba, nos anos 1970, como coordenadora de uma equipe multidisciplinar na construção de diretrizes para o planejamento regional do Vale do Paraíba.

A biografia de Rosa Kliass mostra que ela é uma das precursoras da defesa da preservação do meio ambiente no Brasil.

“Falava-se pouco em ecologia, mas, por causa da Rosa Kliass, houve uma preocupação grande com o meio ambiente. Mais tarde, no governo, tombei toda a Serra do Mar no Estado de São Paulo, a Mata Atlântica e as ilhas do litoral paulista, começando com Anchieta, Ilhabela e Cardoso”, declarou Paulo Egydio Martins, governador de São Paulo entre 1975 e 1979.

Graças a um trabalho realizado na capital paulista, por Rosa e sua companheira de faculdade e trabalho, Miranda Magnoli, nos anos 1960, chamado de Plano de Áreas Verdes de São Paulo, foi criado o Departamento de Parques e Áreas Verdes da Prefeitura de São Paulo.

Entre seus trabalhos mais destacados estão a revitalização do Vale do Anhangabaú (1981-1991), ao lado dos arquitetos Jorge Wilheim e Jamil Kfouri; os projetos paisagísticos para a Avenida Paulista (1972) e o Parque da Juventude em São Paulo, situado no espaço onde havia o Complexo Penitenciário do Carandiru (2003);  os Parques do Abaeté (1996) e das Esculturas do MAM – Bahia do Forte (1998), em Salvador;  o Projeto Feliz Lusitânia (2000) e o Parque Mangal das Garças  (2005), ambos em Belém do Pará; o Plano da Paisagem em São Luís do Maranhão (2003); e os Aeroportos de Brasília, Belém do Pará e Congonhas.

Em 2019, Rosa foi a primeira mulher premiada com o Colar de Ouro do Instituto de Arquitetos do Brasil, condecoração voltada aos profissionais do ramo que realizaram obras notáveis.

“Sua obra teórica, que compreende teses, livros e escritos, é de notável relevância. Considerando-se a escassez bibliográfica na área do paisagismo à época de sua graduação nos anos 50, Rosa foi responsável pela expansão e difusão de escritos, contribuindo com a formação de “profissionais da paisagem”, como costuma dizer”, registrou o portal Arch Daily, especializado em matérias de arquitetura, à época da premiação.

A paisagista foi professora na Universidade Mackenzie e em diversos outros cursos brasileiros e estrangeiros e é autora dos livros “Rosa Kliass – desenhando paisagens, moldando uma profissão”, editado em 2006 pela editora Senac – SP, e “Parques urbanos de São Paulo”, de  1993, pela editora Pini, e de vários trabalhos publicados  no Brasil e em outros países.

 Antes de ser Rosa Kliass: Rosinha Alembick

Entre todos os merecidos títulos e adjetivos utilizados em abundância, mundo afora, para definir a arquiteta paisagista Rosa Grena Kliass, existe um, em especial, ao qual ela mesma, de maneira afetuosa, saudosa e recorrente, faz questão de exaltar, assim como seus familiares, amigos e colegas de profissão, que a ele se referem com ternura: “são-roquense”.

Rosa no colo de sua mãe, D. Shura – São Roque – 1933

Para o mundo profissional e acadêmico, a arquiteta paisagista Rosa Grena Kliass. Entretanto, simplesmente Rosinha, para aquela São Roque de outrora, relembrada e descrita por ela, com o semblante emocionado e nostálgico, como “…o lugar onde tudo começou, terra querida, que traz lembranças muito gratificantes…”.

Em 17 de maio de 2014, tive a satisfação de conhecer e entrevistar Rosa Kliass em São Roque, na sede da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de São Roque e Região – ASSEA, que recebeu sua visita para uma reunião. A matéria foi publicada na coluna São-roquices, nas paginas do tradicional jornal são-roquense “O Democrata”, de 30 de maio de 2014.

Àquela ocasião, Rosa Kliass fez entusiástica e emotiva exposição sobre seus vínculos familiares e afetivos com São Roque e as impressões que a cidade lhe despertava no presente.

Entrevista de Rosa Kliass à coluna São-roquices – Maio/2014

Ler, em “O livro da Rosa: vivência e paisagens”, as memórias de Rosa Kliass sobre seus laços de família, sua infância, adolescência e juventude em São Roque, descritas com as mesmas tintas do afeto e da saudade com que pintou suas palavras ao conceder-me a entrevista, em 2014, reforça a impressão que Rosinha me deixou, no sentido de que essas referidas vivências na sua terra natal são o profundo alicerce que a tem sustentado com solidez ao longo de seus 87 anos de vida.

Rosa Grena Alembick nasceu em São Roque, em 15 de outubro de 1932. Seu pai, o judeu José Alembick, que dá nome a uma das ruas centrais da cidade, chegou ao Brasil no final dos anos 1920, fugindo de uma Polônia antissemita. A convite de um amigo, mudou-se para São Roque em 1929, para assumir uma carteira de clientes como caixeiro-viajante. Em 1932, casou-se com a judia russa Sônia, conhecida como Dona  Shura, que veio a São Roque morar com sua irmã, Marta, que já havia aqui fixado residência com seu esposo Marcos.

Os negócios prosperaram e, mais tarde, fundou a Casa Internacional José Alembick, na Rua XV de Novembro, esquina com antiga Travessa do Theatro, hoje rua Professora Rosina de Oliveira, onde atualmente se vê uma loja de roupas e calçados.

Envelope comercial da Casa Internacional, de José Alembick

A história de José e Sônia Alembick e a imigração judaica em São Roque serão  alvos de futuras crônicas na coluna São-roquices.

Aos onze anos de idade, Rosinha finalizou o curso primário no Grupo Escolar “Dr. Bernardino de Campos” e, na sala das meninas, foi laureada como a primeira aluna da classe, ao lado de Henrique Luiz Arnóbio, agraciado com a premiação na ala masculina dos formandos. Seus pais continuaram a viver em São Roque e, assim, Rosinha retornava para sua terra aos finais de semana e durante as férias escolares.

Em 1956, casou-se com Wlademir Kliass, com quem estudara e se formara na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, falecido em 1985. Tiveram dois filhos, Paulo e Sônia.

 

Rosa e Wlademir Kliass, no dia de seu casamento, em  São Paulo – 1956

Michel Gorski, sobrinho de Rosa Kliass e um dos colaboradores na produção do livro, presente ao lançamento da obra, recordou seus tempos de menino, quando passava as férias escolares em São Roque, na casa de seus avós, José e Sônia Alembick, e compartilha com a tia o amor e as boas lembranças que os ligam à terra eleita por seus antepassados para reconstruir a vida.

“Uma das coisas que a Rosa sempre destacou ao logo de toda a sua vida é o orgulho que ela tem de ter vindo de São Roque. E ela deixa isso claro no livro. Ela veio para a cidade grande, mas nunca se esqueceu da cidade pequena, das alegrias e amizades da infância e da adolescência, da integração àquela comunidade. Ela tem um amor profundo e um orgulho pela cidade dela. E eu também tenho minhas boas lembranças de São Roque, como o fato de lá haver ido ao cinema pela primeira vez na vida, no Cine São José”, revela Michel Gorski.

“A Rosa tem uma frase que é a epígrafe do primeiro capítulo do livro, que é “São Roque não ficou para trás, ficou no fundo…” e isso condensa a relevância de São Roque na vida da Rosa”, completou Ciça Gorski, organizadora da obra recém-lançada e esposa de Michel Gorski.

Encontros e reencontros

O lançamento de “O livro da Rosa: vivência e paisagens” promoveu encontros e reencontros. Na extensa fila em busca do autógrafo, do abraço e da foto, pessoas de todas as idades – estudantes, ex-alunos, amigos, clientes, colegas de profissão – exaltavam a importância de Rosa Kliass no cenário do paisagismo brasileiro e internacional, revelavam-se ansiosas por conhecê-la pessoalmente ou rememoravam passagens que viveram ao seu lado.

Pessoas de todas as idades prestigiaram o lançamento da obra “O livro da Rosa” 

Rogério Batagliesi, arquiteto proprietário da Batagliesi Arquitetos + Designers, em São Paulo, foi aluno de Rosa Kliass no Mackenzie, na década de 1970, e trabalhou ao lado dela em alguns projetos.

“A tia Rosa é o máximo! Vim para dar um abraço, matar saudades dessa pessoa competente e querida. Ela foi minha professora quando já era uma arquiteta consagrada e depois fomos nos encontrando na vida profissional e fizemos diversos projetos nas áreas de paisagismo, design e arquitetura. Ela é um mito no paisagismo, uma referência para todos, fazendo projetos de alta complexidade, alto nível técnico e grande aprofundamento das ideias. Uma mestra para todos nós!  Além disso, é uma figura emblemática na defesa dos interesses dos profissionais de arquitetura, paisagismo e design e uma pessoa maravilhosa como amiga, que realmente merece uma biografia”, diz Batagliesi, entusiasmado.

Jamil Kfouri e Rosa Kliass, coautores do projeto de revitalização do Vale do Anhangabaú

Coautor do projeto de revitalização do Vale do Anhangabaú, o arquiteto Jamil Kfouri também foi buscar seu exemplar do livro de Rosa Kliass e falou à coluna São-roquices: “Trabalhar com a Rosa sempre foi um privilégio, pelo seu nível de conhecimento e sensibilidade e pela pessoa maravilhosa que é. Elaboramos o projeto de revitalização do Vale do Anhangabaú, vencedor de um concurso público. Enfrentamos inúmeras dificuldades até que o projeto fosse executado e tivemos a alegria de ver aquele espaço totalmente remodelado e à disposição da população como um local  diferenciado na cidade de São Paulo. Hoje, sofremos juntos o desgosto de ver o Anhangabaú extremamente descaracterizado, com os espaços e equipamentos deteriorados e em vias de ser modificado à revelia das diretrizes do projeto original, em completo desrespeito aos profissionais que o elaboraram e ao projeto vencedor do concurso”, relata Kfouri.

  José Luiz Brenna (em pé) e Rogério Batagliesi, amigos e admiradores de Rosa Kliass

José Luiz Brenna também é arquiteto e trabalhou ao lado de Rosa Kliass de 1998 a 2004. “Tive a oportunidade incrível de trabalhar ao lado da Rosa em muitos projetos, sendo o Parque da Juventude, no antigo Complexo Penitenciário do Carandiru, o mais importante deles. A Rosa sempre foi muito generosa, proporcionou-me uma grande experiência e abriu as portas para que eu fizesse muitos contatos que ainda hoje refletem na minha vida e na minha atuação profissional. Convivo com a Rosa até agora e ainda fazemos projetos juntos, principalmente na Região Norte, onde ela é muito conceituada. Ela tornou-se uma amiga por quem tenho um carinho gigantesco. É uma mulher de vanguarda, uma desbravadora e uma referência na área de paisagismo”, falou Brenna.

“O Largo dos Mendes projetado por Rosa Grena Kliass”

Em 20 de julho de 2016, o jornalista Vander Luiz Rosa publicou, aqui mesmo no site, matéria com o título “O Largo dos Mendes projetado por Rosa Grena Kliass”, em que relata o empenho – frustrado – de um grupo de são-roquenses em implantar no logradouro, área central de São Roque, um projeto paisagístico assinado pela arquiteta são-roquense.

Vale a pena conhecer mais esse capítulo da biografia de Rosa Kliass que, a um só tempo, denota seu apreço por São Roque e mostra a grande oportunidade que a cidade perdeu de ter um espaço bonito e agradável, desenhado por uma profissional do mais alto gabarito que, certamente, seria de imensa valia para a população são-roquense e enriqueceria o potencial turístico da área central da cidade.

A matéria traz, ainda, o áudio da entrevista que Rosa Kliass concedeu ao Vander Luiz em 1994, pelas ondas da antiga Rádio Universal de São Roque. Acesse por meio do link   https://vanderluiz.com.br/site/o-largo-dos-mendes-projetado-por-rosa-grena-kliass/.

 Lançamento do livro da Rosa em São Roque

O amor de Rosa Kliass por sua terra natal e a importância de uma filha tão ilustre para a cidade merecem que se organize um evento para lançar também em São Roque “O livro da Rosa: vivência e paisagens”.

Fica a sugestão às organizadoras da obra, Lúcia Costa e Ciça Gorski,  ao Departamento de Cultura da Prefeitura da Estância Turística de São Roque, à Biblioteca Municipal “Dr. Arthur Riedel” e à Associação dos Engenheiros e Arquitetos de São Roque e Região – ASSEA.

O lançamento do livro em São Roque será, também, uma oportunidade para os são-roquenses adquirirem seus exemplares autografados.

São-roquenses em momento são-roquices: Rosa Kliass autografa um exemplar do livro, que oferece à Simone Judica

A coluna São-roquices e o site do Vander Luiz, sempre a postos para valorizar São Roque e sua gente, apoiam a iniciativa e abrem espaço para divulgação e cobertura jornalística do evento.

* Simone Judica é advogada, jornalista e colunista do site www.vanderluiz.com.br (simonejudica@gmail.com.br)

@simonejudicasr

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Sobre o autor

Simone Judica

Simone Judica

Advogada e jornalista.

1 comentário

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  • Parabéns, Simone, andorinha solitária da imprensa local, por representar a todos nós nesse evento tão significativo para São Roque. Ignorá-lo teria sido uma enorme descortesia da cidade para com sua filha ilustre.

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