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Em 1908, visita do presidente Afonso Pena a São Paulo passando por cidades do Interior; inclusive São Roque

O presidente Afonso Pena (15/11/1906 – 14/06/1909) passou por várias regiões de São Paulo, recepcionado na capital iniciou uma visita onde inaugurou trechos das estradas de ferro Sorocabana e Noroeste do Brasil e conheceu dezenas de municípios. Esteve acompanhado de Jorge Tibiriçá (presidente do Estado de São Paulo), Miguel Calmon (Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas), Carlos Peixoto ( presidente da Câmara dos Deputados e representantes de vários setores do governo federal. Alguns deles poderão aparecer ao longo da publicação.

Durante a viagem é possível acompanhar relatos dos munícipios por onde passou. Inclusive, a nossa São Roque. No entanto, por entender a importância da viagem de um presidente da República passando por várias cidades do Interior resolvi dar esse destaque. Em 1908, as viagens eram longas e, principalmente, demoradas. A visita de governador ou presidente como era chamado neste período, ganhava grande destaque. Imagine então quando se tratava de um presidente da República. O texto tem como base reportagem do jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro (edição de 22 de março de 1908 – edição número 83).

O mineiro Afonso Pena preocupa-se com a integração do país. Ao ser eleito percorreu 21 mil quilômetros visitando 18 das 20 capitais estaduais. Durante o mandato,  além da interligação ferroviária entre São Paulo e Paraná, instalou o telegráfo ligando o Amazonas e a capital federal Rio de Janeiro. Por isso, a viagem pelo Interior de São Paulo não foi uma mera formalidade.

Em 13 de fevereiro de 1908, Afonso Pena partiu da Estação São Francisco Xavier (Rio de Janeiro) em trem especial com destino à capital paulista sendo saudado nas estações durante o percurso. Permaneceu dois dias em São Paulo visitando vários pontos com destaque para o encontro na Força Policial do Estado (atual Polícia Militar do Estado de São Paulo), onde estava em andamento desde 1906 a missão militar francesa comandada pelo coronel Paul Balagny que seguiu até 1914. Antes desta missaão, a Força Pública de São Paulo era formada em grande parte por estrangeiros. O brasileiro era visto com desconfiança por não se prestarem ao rigor da disciplina militar.

No dia 15 de fevereiro, às 7h, o Afonso Pena, dr. Miguel Calmon (Ministro da Viação), Jorge Tibiriçá (presidente de São Paulo), dr. Carlos Botelho (secretário de Agricultura, a pasta abrangia Comércio, Obras Públicas, Viação, Navegação e Iluminação) e Gustavo Godoy (secretário de Justiça), dr. Albuquerque Lins (presidente eleito de São Paulo, a cidade Lins é em homenagem ao seu nome), general Marciano de Magalhães, coronel Mendes de Moraes, capitão de corveta Velloso Rabelo, major Neiva de Figueiredo, dr. Edmundo Veiga, dr. Otávio Pena, coronel Alvares da Fonseca, capitão Joaquim Coutinho, tenente Arthur Godoy, dr. Ernesto Lassance, Paulo de Frontin , Pedro Nolasco, Trajano de Medeiros, Antonio Olavo de Araújo Góes, Del Castilho, Silva Freire, Francisco Antonio Coelho, Leon Maitre, Eugênio Destez, Henrique Santos Dumont, Augusto Ramos, Antonio Penido, Clodomiro Pereira da Silva, Huet Bacellar, Álvaro Caminha, A. A. Ferreira da Silva Damaso Diniz, Leopoldo Lorena e representantes dos jornais do Rio de Janeiro e São Paulo.

Um carro de inspeção seguia à frente do trem especial com a comitiva presidencial, que estava enfeitado de flores. Na saída de São Paulo, a Sorocabana tem os trilhos quase paralelos da empresa inglesa até a Lapa.

A Estrada de Ferro Sorocaba teve um início modesto (1875) com tráfego reduzido e pequeno movimento de passageiros, tanto que os trens da empresa utilizavam por empréstimo a estação da São Paulo Railway. Em 1908, ocupava uma modesta estação, mas com projeto para a construção de um edifício no Largo do General Osório, 66 (Santa Efigênia).

A nova estação foi inaugurada em 1914, projeto do engenheiro Ramos de Azevedo. Entre 1942 e 1983, sede do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), que, desde 2009, abriga o Memorial da Resistência de São Paulo. Em 1938, ocorreu a inauguração da Estação Júlio Prestes. Por conta desta homenagem ao ex-governador de São Paulo e presidente eleito – que não assumiu por conta da Revolução de 1930 -, a estação Júlio Prestes da Sorocabana, em São Roque, passou ser chamada apenas de Canguera, distrito em que está localizada

Voltando a viagem presidencial de 1908. Na Barra Funda, fica a oficina com um guindaste elétrico para a descarga de carvão único do Brasil. Junto ao guindaste, a grande carvoeira de cimento armado.

Em Osasco, com cerca de meia hora de viagem, onde merece registro uma leiteria e vasto vinhedo para a fabricação de diversas marcas de vinho e suco de uva, fábricas de lã e produtores de cerâmica. Osasco abastece o mercado da capital com frutas e legumes.

Barueri é citado como pouco distante da velha cidade de Parnahyba (Santana de Parnaíba) à margem do Rio Tietê, onde a Companhia São Paulo Tramway Light and Power construiu uma barragem de alvenaria de 12 metros de altura e 224 metros de extensão. A transmissão da energia elétrica é feita por meio 33 quilometros de linha aérea. Próximo a Barueri fica Senhor Bom Jesus de Pirapora (Pirapora do Bom Jesus) que no mês de agosto recebe romarias com milhares de forasteiros.

SÃO JOÃO NOVO (Distrito de São Roque) – Na passagem por São João Novo uma estação toda enfeitada com as precedentes, bandeiras e folhas. Uma banda de música executou o hino nacional e o público gritou “viva” ao presidente. Nas estações, nas casas que margeiam a estrada inúmeras pessoas faziam saudações.

SERRA DE SÃO FRANCISCO – Aqui fica uma dúvida. A Serra de São Francisco fica em Votorantim. Pela citação antes da chegada em São Roque, pode ser que se trate da Serra do Taxaquara. O trem da comitiva enfrenou dificuldades na subida da Serra de São Francisco nas proximidades de Cotia, tornado-se mais acentuada após São João.

SÃO ROQUE – Localidade adiantada e cheia de vida. Recepção festiva ao presidente na plataforma cheia de povo, bandas de músicas e, principalmente, numerosos alunos das escolas públicas. Destaca o clima ameníssimo do município que tem 11.550 almas. Relevo geralmente montanhoso com ramificações da Cantareira, o Morro do Saboó.

Fundada em meados do século XVII pelo capitão Pedro Vaz de Barros, freguezia (1758), vila (1832) e cidade (1864).

A fábrica de tecidos Dell’Acqua fundada há 16 anos (1892) de propriedade italiana. Capital de 350:00$ com 251 teares e 350 operários.

Possui duas lindas cascatas, um jazida de ferro magnético, sem fósforos, considerada superior ao minério de Ipanema (Iperó).

Na região entre Mairinque e Alumínio (que pertenciam a São Roque), existem jazidas de mármores betuminosos (completamente negros ou raiados de branco) e talcosos (variedade verde antigo).

MAIRINQUE – A estação de Mayrink é um dos extremos que liga as linhas férreas das companhias Sorocabana e Ituana, depois da fusão em 1892, quando surgiu a Companhia União Sorocabana de Itu. Local das oficinas mecânicas da Sorocabana.

A vila operária possui uma organização especia oferecendo ao trabalhador jardim e plantas, lar arejado e alegre. A instalação de esgoto considerada uma das mais perfeitas do mundo.

RODOVALHO [ATUAL ALUMÍNIO]: Possui fábrica de cimento com produto de boa qualidade de acordo com análises que garantiu fechar contratos importantes, entre outros, com a Estrada de Ferro Central.

SOROCABA – Recepção de duas bandas de música, alunos uniformizados com distintivos e ramalhetes de flores. O Hino da Bandeira cantado com afinação e entusiasmo. Pausa para almoço.

Sorocaba fundada, em 1600, com o nome de São Felipe. Em 1654, o paulista Balthazar Fernandes Mourão e genros ergueram a Capela de Nossa Senhora da Ponte dando início a nova povoação com o nome de Sorocaba. É de se estranhar que o o fundador de Sorocaba tenha o sobrenome Mourão. Baltazar e Domingos Fernandes (fundador de Itu) são filhos de Susana Dias e Manuel Fernandes Ramos, mas em algumas pesquisas aparece Manuel Fernandes Ramos Mourão.

Elevada à vila (1661) e cidade (1842). Em 1842, a movimento revolucionário de 1842 teve início na cidade. Excelente clima a 500 metros acima do nível do mar. População de 27.550.

Conhecida pelas feiras de muares que foram sucessidas por plantações de cana, cereais e indústria abrindo novos campos de atividades. Produção de óleo de algodão e três importantes fábricas de fiação e tecelagem. No município, a conhecida usina de ferro de Ipanema.

VOTORANTIM – O Banco União de São Paulo montou uma importante fábrica de tecidos outra de tijolos e telha francesa, fábrica de chita com 200 teares. A 9 km estão jazidas de mármore e cal de Itupararanga com oficina de trabalho, serraria de madeira de lei e depósito de granito cor-de-rosa. Depois dessa localidade, na serra uma usina de eletrecidade.

Desvio à esquerda linha férrea para oficina para a construção de carros de passageiros da Sorocabana. À direita, almoxarifado e o depósito de locomotivas e a bela residência do engenheiro de divisão, dr. Prospero Ariani.

Entre Sorocaba e Ipanema, o local conhecido Villetas, grandes plantações de abacaxi.

BOITUVA – 13h30 – Um agricultor alemão de Boituva exportou para a Argentina, em 1907, um grande carregamento de abacaxi no valor de sessenta contos de réis. Da Estação partem os ramais por Tatui, Itapetininga e Faxina (atual Itapeva) que irá até Itaraú.

PORTO FELIZ – Desse ponto é que partiam os bandeirantes, os primeiros exploradores dos sertões.

TATUÍ – Entre outros melhoramentos, cidade com iluminação elétrica condição de poucas cidades de São Paulo. Em andamento estudos de jazidas pela Comissão Geográfica e Geoolócia do Estado.  Um dos centros da propaganda republicana propagando para toda a região.

Própera cultura de videiras, produzindo diversas marcas de vinho seco, moscatel e tinto.

ITAPETININGA – Chegada às 15h, debaixo de chuva torrencial que não afastou grande multidão. Lidera a recepção o vice-presidente eleito do Estado de São Paulo, Coronel Fernando Prestes de Albuquerque. Itapetininga fundada em 1770, elevada a cidade (1885) e população de 16 mil pessoas. Agricultura e pecuária as principais fontes de renda. Conta com importantes fábricas: laticínios dos Irmãos Barreti, banha dos Irmãos Matarazzo (fundada em 1904) e uma de óleos de semente de algodão.

Sede de duas expedições regionais. Em 1894, estabeleceu-se em Itapetininga o quartel general das forças que marcharam ao encontro do caudilho Gumercindo Saraiva. A Avenida Peixoto Gomide a principal artéria da cidade com dois palácios ocupados pelas escolas Modelo e Complementar, ambas com frequência de 700 alunos dos dois sexos.

Da nova linha de Itapetininga em diante, pouco se aproveito do que fora feito em 1894, com recursos fornecidos pelo governo federal para auxiliar a construção do então ramal estratégico de Itararé.

Entre Itapetininga e Engenheiro Hermillo no  ponto final do tráfego, as estações de Cesário, (km 44), Herval (km 74) e Engenheiro Hermillo (km 80). O trecho inagurado vai de Engeheiro Hermillo e Aracassú.  Saindo de Engenheiro Hermillo a linha faz uma curva de grande raio na direção do divisor das águas dos rios Itapetininga e Paranapanema. No Rio Paranapanema, uma ponte de 45 metros de vão livre.

ARACASSÚ – 16h30 – Distante 291 km de São Paulo. Festa na estação com a maioria proveniente da vizinha Faxina [Itapeva]. Lavrada a ata de fundação em papel pergaminho, assinado pelo presidente Affonso Penna e todos os membros da comitiva. Presidente disse que esperava em breve visitar Curitiba pela estrada de ferro.

REGRESSO A ITAPETININGA – Após a inauguração de Aracassu retorno para Itapetininga debaixo de temporal com chegadas às 21h. Recepção no Grupo Escolar. No brinde, saudação do presidente [governador] do Estado, Jorge Tibiriçá.

DISCURSO DE JORGE TIBIRIÇÁ

“Quando da  minha campanha eleitoral disse que o momento que atravessamos de depressão das rendas estaduais não nos permite cogitar grandes obras públicas. Há , porém, algumas que precisam ser continuadas, como as obras de saneamento do nosso principal porto de mar [Santos}, as do abastecimento de águas à capital e outras de menor importância. Na Viação férreia convém animar a construção das linhas comerciais que irão em demanda dos Estados fronteiros para atraí-los aos mercados de São Paulo, linhs que abram povoamento nas zonas de nosso Estado, e, tocamos agora em ponto importante, a linha do caráter estratégico.

Todos compreedem hoje a grande vantagem de possuir o Brasil vias-férreas que liguem os Estados costeiros, desde o Pará até o Rio Grande do Sul, cortando em ser percurso as estradas que demandam os portos brasileiros. A viação assim constituída é em tempo de paz um instrumento de progresso e, em caso, de uma agressão ao Brasil um instrumento de defesa.

Aos Estados cabe o dever de secundar a União auxiliando a construção de parte dessa grande via-férrea que percorra os seus respectivos territórios.

A São Paulo cabe o auxlílio para a linha de Itapetininga a Itararé, que irá encontrar a linha da Companhia São Paulo Rio Grande.

Para as estradas em tráfego, que têm contato com o governo do Estado, torna-se necessária a fixação da onta de capital que ficará aberta afim de serem nela incluídas despesas de caráter permanente.

Assim será possível determinar-se com precisão a renda líquida das estradas, e a que porcentagens corresponde  o capital empregado. Só então, o governo e companhias poderão saber até que ponto se poderão reduzir as tarifas ferro-viárias, sem prejuízo dos capitais que se empregaram nas construções e melhoramentos das diversas redes de estrada de ferro.

Para mim é, pois, motivo de grande satisfação ter inaugurado, no fim do meu governo, este trecho de estrada de ferro, abrindo ao país e ao Estado novos elementos para ao seu desenvolvimento, dando ao supremo magistrado da Nação o testemunho de nosso esforço em pról do engrandecimento do país.

Em novme do povo paulista saudo o presidente da República, assegundado a V. Exª que o Partido Republicano, que a 18 de setembro me elevou a presidência do Estado e me tem apoiado, continuará a demonstrar o mais franco apoio ao governo de V. Exª.”

DISCURSO DE AFFONSO PENNA

“As provas de simpatia que tenho recebido em toda parte, no prospero e adiantado Estado de São Paulo, na medida do sentimento generoso do povo para com o chefe da nação, e agora traduzido nas palavras do ilustre presidente [governador], eu não podia deixar de corresponder nesta festa do Estado de São Paulo.

Não é de hoje que se estuda no Brasil o problema da ligação do centro aos extremos do Norte e do Sul.

Logos nos primeiros anos da administração, como homem de governo, o padre Diogo Antonio Feijá, na célebre lei de 1835, demonstrava a urgente necessidade da ligação da corte do império ao extremo sul.

Depois de decorridos setenta anos, vemos ressurgir esta ideia e começar o trabalho levando-se adiante o grande cometimento.

É este, senhores, o melhor modo de honrar a memória dos grandes homens do passado, realizando o que para eles era um sonho. Sentindo o peso da responsabilidade que, de ano para ano, mais se acentuava pelas necessidades presentes da civilização, o Estado de São Paulo pode orgulhar-se porque é preciso sair-se para o estrangeiro para s observar as maravilhas do progresso.

Ainda há pouco tempo um ilustre estrangeiro que conhece todo o nosso país, de norte a sul, o sr. Charles Wienner, e que percorreu todo o Estado de São Paulo, fez justiça a São Paulo e o seu juízo é insuspeito.

Agora mesmo estamos em um estabelecimento de instrução [discurso no Grupo Escolar de Itapetininga]. É aqui que as novas gerações vem para receber os primeiros conhecimentos para a formação de homens aptos para os misteres da vida, em toda as suas manifestações.

Estes melhoramentos que hoje se inauguraram são a realização o grande sonho de Feijó.

Fizemos bem em obedecer a essa inspiração do saudoso patriota que idealizou o Brasil grande e progessista.

Felizmente, não temos perdido o nosso tempo; de dia para dia, a nossa pátria avança e se engrandece pela cooperação dedicada de seus filhos.

Deixou de ser uma simples expressão geográfica para participar do concerto das nações do mundo. Contente, vejo o desdobramento do seu progresso.

Tereis ouvido talvez, dizer-se: o velho presidente é um otimista, um sonhador.

Essa afirmação é errônea: o velho presidnete da República, o velho operário, não é um sonhador.

Daqui a quatro ou cindo anos, poderemos pela Nordeste do Brasil, vir das fronteiras do Sul, de Montevidéo, ao Rio de Janeiro, do Rio ao coração do Brasi, atravessar Minas, ir ao São Francisco, da Bahia ao Maranhão, e, dentro de poucos anos, espero que este desenvolvimento de viação férre estará elevado ao quadruplo.

E se só os nossos descendentes poderão ver a realização completa desse plano grandioso, eu, apesar de velho, espero ver realizado grande parte desse melhoramento no país.

Agradeço o modo gentil por que me recebeu o povo de Itapetininga e me sito fortalecido pela afirmação de apoio, que me oferece o Partido Republicano do Estado de São Paulo, com quem aliás, sempre contei.

Devo, entretanto, dizer que não tenho outras preocupações senão o engrandecimento de nossa pátria.

Que pode pretender um velho como eu além dos sete palmos de terra e a oração de uma alma amiga?

Como patriota sim, pretendo a glória do Brasil, que vê-lo grande e entre as maiores nações do mundo e e a felicidade do seu povo.

Eu bebo pela grande felicidade do Estado de São Paulo.”

A cerimônia foi encerrada por volta da meia-noite.

Após o banquete em Itapetininga, Afonso pega regressou de trem a Boituva, onde pegou a linha principal da Estrada de Ferro Sorocabana com destino a Bauru.

16 DE FEVEREIRO: BAURU – 14h30 – Chegada a uma localidade fadada a um futuro deslumbrante. Excelente topografia e os arredores se prestam a toda sorte de culturas. Há alguns anos era um pobre lugarejo que era de vez em quando assaltada pelos índios. Properou com a Sorocabana e o início dos trabalhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil tornando-se um dos centros mais adiantados do sertão paulista. Bauru tem rede telefônica, jornais e outros melhoramentos.

Após almoço na residência do engenheiro construtor e empreenteiro da estada, Affonso Penna deixou Bauru, às 16h, para viajar por 125 quilômetros da Noroeste, ponto este que recebeu o nome de Estação Presidente Penna.

ESTAÇÃO PRESIDENTE PENNA – Servido jantar e discuso presidencial que destacou a esperança que o governo federal deposita  no futuro daquela importane via de penetração que faz servir uma das ricas zonas do interior do Brasil. Às 4 da manhã, regresso do trem especial  para Baurú, que apresentava belíssimo aspecto pela sua brilhante iluminação.

17 DE FEVEREIRO: SÃO PAULO DE AGUDOS – 4h30 partiu para São Paulo de Agudos [atual Agudos] para o início da Linha Paulista, onde cHegou às 5h10. Assim o trem especial da comitiva presidencial passa a utilizar os trilhos da Cia Paulista, abandonando a Sorocabana Railway, que tem cerca de 1.200 km de linha férrea e 200 de navegação e uma renda bruta de 12 mil réis anuais.

Em Agudos, passam a fazer parte da comitiva o dr. Francisco Monlevade (inspetor geral da Paulista) e o dr. Antonio Penido (chefe do tráfego). Para evitar constantes baldeações foi feita em Agudos uma chave especial que comunica as linhas da Sorocabana e Paulista. Assim, o mesmo trem da Sorocabana conduziu a comitiva até a estação de Rio Claro.

Às 7h, atravessou, em Palmeiras, o Rio Tietê sobre uma ponte metálica de 400 metros. Na estação de Campos Salles, o trem parou para que o presidente [governador], Jorge Tibiriça, abraçasse a filha e o genro.

DOIS CÓRREGOS – 9h  – Saudação do Dr. Manuel de Andrade em nome da Câmara Municipal e dos moradores. Juntaram-se a comitiva dr. Carlos Botelho, conselheiro Antonio Prado (diretor da Companhia Paulista), Ramos de Azeredo, Antonio Prado Filho, Luiz Fonseca, Limpo de Abreu, Cordeiro da Graça, João Pinheiro Filho, Adalberto Moreira (chefe da linha) e Alberto William (chefe da locomoção).

TORRINHA – Recepção na Estação de Torrinhas com o prefeito Coronel Sebastião Soares.

V ISCONDE DE RIO CLARO – 12h30 – Grande multidão local e de moradores de São Carlos

SAO CARLOS – Affonso Penna saudado por Gastão de Sá, em nome do município de São Carlos. Jornalistas recebidos por uma comissão da Paulista formada pelos engenheiros Luiz Mattoso, Paulo Vargas Cavalheiro, Albano de Azevedo e Souza, Edmundo Navarro de Andrade, Joaquim Fonseca Rodrigues e João Maciel.

Na estação, almoço com serviço do Restaurant de Campinas. Entre os presentes sentados, Affonso Penna, Jorge Tibiriçá, Miguel Calmon, Antonio Prado, Albuquerque Lins, Gustavo Godoy, Carlos Botelho, Edmundo Veiga, Octávio Penna, coronel Francisco J. Alvares da Fonseca, coronel Feliciano Mendes de Moraes, capitão de corveta Pedro Vello Rebello, general Mariano Magalhães, major Neiva de Figueiredo, capitão Joaquim Coutinho, tenente Arhtur Godoy, Paulo de Frontin, Alfredo Maia, Ernesto Lassance, Henrique Santos Dumont, Pedro Nolasco, Trajano de Medeiros, Antonio Penido, Augusto Ramos, Silva Freire, Antonio Olavo de Araújo Góes, José Luiz Coelho, Clodomiro Pereira da Silva, John M. Egan, Ramos de Azevedo, [?] Ed. Dempo de Abreu, William J. Shellon, J. Huet de Bacellar, Cordeiro da Graça, F. Monlevade, Alberto Mendonça Moreira, Álvaro de Azevedo e Silva, M. Ferreira Neves, Carneiro de Mendonça, W. Massena, João Brandão, Noel Baptista, Rubem Braga, Gabriel Pinheiro, Joaquim de Azevedo, Lindolpho Azevedo, Olival Costa, Pisa Sobrinho, Sá Rocha, José Vieira e Joaquim Lacerda.

SORTEIO MILITAR – DISCURSO DE AFFONSO PENA

“Refiro-me ao sorteio militar. Há quem combata essa lei patriótica, dizendo que virá aniquilar a lavoura, as profissões liberais, o comércio, as indústrias, as esolas, afastando do trabalho e aplicação os elementos indispensáveis.

Na República Argentina, no Peru, Chile, Bolívia, para fala nos países da América e nos países autocratas da velha Europa, a lei do sorteio é a base das respectivas organizações militares. Entrentanto, é crescente nesses países, o progresso de todos os ramos de atividade humana. No Brasil, a lei do sorteio militar não trará alteração sensível na nossa vida, e é fazer grave injustiça ao governo atribuir ao projeto de reorganização do Exército ideias ou intuitos opressores. Não será argumento o efetivo do Exército que é de 20 mil homens: classes de cada contingente.

[Tatui] freguesia (1822), vila (1844) e cidade (1861) estende-se em uma vasta planíce de beleza encantadora. Tem 21.350 habitantes, a fábrica de tecidos A. Matheus é magnificamente montada com capita de 1.500 contos de réis. O proprietário é o industrial Manoel Guedes Pinto de Mello (1853, em Tatuí – 09/04/1927).”

Uma pausa no discurso. Segundo a Fundação Educacional Manoel Guedes, o patrono desta instituição, com apenas 17 anos de idade instalou em Tatui a primeira fábrica de técidos do Brasil. O pai Martinho Guedes de Pinto Mello iniciou na região a plantação de algodão na Fazenda Pederneiras. Em 1881, Manoel criou a Cia de Fiação e Tecelagem São Martinho

“Em Xarqueada existe gris betuminoso com acentuados indícios de petróleo.

O excluído voltará à vida civil para a atividade ininterrupta do trabalho. Os voluntários de manobras nas companhias regionais próximas dos domícilios do conscriptos, farão os necessários exercícios em épocas próprias durante as férias anuais.

Nestas bases, a lei do serviço militar será regulamentada nos moldes mais liberais, atendendo as circunstâncias e condições de todas as classes sociais, criando um tributo igualitário que todo o cidadão deve à sua pátria, tendo em mira como única preocupação o engrandecimento deste país que todos nós prezamos.

Comecei falando da Companhia e acidentalmente me referi a lei do sorteio militar.

Terminando, falarei do progresso do Brasil, saudando tão valiosos fatores da sua grandeza, como são os diretores das estradas de ferro de São Paulo aqui presentes, entre os quais o eminente paulista dr. Antonio Prado.

RIO CLARO – Recepção foi uma verdadeira apoteose.

CAMPINAS – 20h45 – O trem especial chegou a Campinas. O presidente foi saudado com uma taça de champanhe e recepcionado pelo deputado Joaquim Álvaro. Depois de 15 minutos deixou a cidade

o carro-restaurant da Paulista, construído na oficina da empresa, foi ligado ao carro especial sob a direção do chefe da locomoção Alfredo Williams. Conta com 11 meas com 44 lugares. Toda mobília em madaeira “teek” importada da Austrália, pintada de branco com frisos dourados. Assoalho atapetado e iluminação elétrica. No carro há cozinha, geleira e lavatórios aperfeiçoados.

Durante toda a viagem pela Sorocabana também houve um organizado serviço volante de merendas e bebidas, além de excelentes uvas, ameixas e pêssegos de São Paulo

Desde outubro de 1988, quando D. Pedro II esteve em Campinas para inaugurar o ramal da Estrada de Poços de Caldas, nenhum outro chefe de nação, no pleno exercício do cargo, tinha visitado Campinas

JUNDIAÍ – 21h50 – O presidente Affonso Penna foi recebido pela Banda Musical do Grêmio Recreativo dos Empregados da Companhia Paulista que executou o Hino Nacional. Em nome dos moradores de Jundiaí, discursou o deputado Eloy Chaves.

Os representants da imprensa carioca telegrafaram ao Diário Popular cumprimentando o decano dos jornalistas e pedindo-lhe para transmitir a rodos os colegas afetuosos abraços de gratidão e reconhecimento pelas gentilezas recebidas durante a permanência em São Paulo.

Quando o trem da Paulista corria a velocidade de 80 km/h, o sr. Speers, superintendente dos jornalistas cariocas, agradeceu ao governador Jorge Tibiriçá a fidalga hospedagem.

SÃO PAULO – A chegada a capital paulista estava prevista para às 20h, o trem porém chegou à gare da Luz às 23 horas. O presidente permaneceu apenas 10 minutos na Estação da Luz, quando Affonso Penna e Jorge Tibiriçá de despediram com um demorado abraço. Embarcaram também o dr. Carlos Peixoto (presidente da Câmara Federal dos Deputados) e Afrânio Peixoto (diretor do Gabinete Médico da Polícia do Rio).

Em Queluz, o presidente recebeu as últimas provas de carinho do povo paulista.

A comitiva seguiu com destino à Guayanã, onde ocorreu a baldeação para a Estrada de Ferro Central.

TELEGRAMA DO PRESIDENTE AFFONSO PENNA AO GOVERNADOR JORGE TIBIRIÇÁ

“Com a abertura do tráfego de 110 km da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e dos 62 km da Estrada de Ferro Sorocabana sobe a extensão total das linhas férreas de São Paulo, entregues ao uso público, a 4.254 km, excluídas algumas centenas de quilômetros de linhas privadas municipais.

Com a rede mineira, que deve ser presentemente igual a paulista, nenhum outro estado do Brasil apresenta condições equivalentes relativamente à extensão territorial.

Em relação à superfície é o Estado do Rio de Janeiro o mais bem dotado de estradas de ferro, por alcança 2.500 km para uma superfície de 69 mil quilômetros quadrados.”

Em Itapetininga, respondendo ao discurso de Jorge Tinbiriçá disse o senhor presidente da República.

“Daqui a quatro ou cinco anos poderemos pelo noroeste do Brasil vir das fronteiras do Sul de Montevidéo ao Rio de Janeiro e do Rio de Janeiro ao coração do Brasil, atravessar Minas, ir ao São Francisco, da Bahia ao Maranhão e dentro de poucos anos espero que este desenvolvimento de viação férrea esteja elevado ao quadruplo.

E se só os nossos descendentes poderão ver a realização completa desse plano grandioso, eu, apesar de velho, espero ver realizada grande parte desses melhoramentos no país”

ESTRADA DE FERRO SOROCABANA

Em 1908, a Estrada de Ferro Sorocabana tinha cerca de 1.200 km de linha férrea e 200 de navegação e uma renda bruta de 12 mil réis anuais.

TRECHO INAUGURADOS

  • Engenheiro Hermillo – Aracassú com 18 km de extensão (Ramal Itararé
  • Mandury – Ilha Grande (Ramal Tibagy).

Dessa forma, os ramais passam a ligar as seguintes localidades.

Ramal Itararé: desde Boituva com 137 km em tráfego e outros 137 km em construção.

Ramal de Tibagy: em tráfego 160 km; em construção 85 km e por estudar 125 km

Construção executada pelos senhores Velloso & Vidal com a direção do dr. Affonso Carneiro de Oliveira Soares. Obra com importância comercial e para novas froteiras militares.

Companhia Paulista (ferrovia) – Saldanha Marinho (presidente da Provincia de São Paulo) autorizou a construção da estrada de ferro, que os ingleses, os homens mais práticos do mundo, não se haviam arrojado a construir. Disse Antonio do Prado, diretor da Companhia Paulista, em 1908

FUTURO

O desenvolvimento das estradas de ferro em benefício do transporte de passageiros e cargas, além de importância militar e acesso a pontos distantes, como a ligação com o Nordeste e a Bolívia.

Vander Luiz

São-roquense, radialista e jornalista

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