DESTAQUE SIMONE JUDICA - SÃO-ROQUICES

UM AGOSTO SEM O GOSTO DAS “AGOSTICES”

O contínuo subir e descer da Avenida Tiradentes rende abraços, dedinhos de prosa ou longas conversas sobre coisas sérias, recordações ou bisbilhotices (Foto: Página Festas de Agosto São Roque – SP no Facebook)

Por: Simone Judica*

 Meses atrás, se alguém ousasse anunciar o que hoje vivemos – ou estamos privados de viver – ergueríamos todos a voz para – indignados, ofendidos ou incrédulos – falar um convicto e sonoro: “Que tolice!”

Mas a verdade é que, por mais incrível que pareça, em 2020 temos um agosto sem “agostices”!

 

“AGOSTICES”

                                                           “Dentre as manias que eu tenho, uma é gostar de você.”             (“Manias”- Celso Cavalcanti e Flávio Cavalcanti)

Por: Simone Judica*

Agosto em São Roque, para quem não vivencia seu significado, pode parecer um feixe de esquisitices!

O observador alheio a nossos costumes poderá entrever, na mescla das festividades religiosas e cívicas, que por vezes sequer se distinguem, apenas um emaranhado de beatices temperado com uma pitada de maluquice!

Sentir nosso agosto exige afinar o coração com o coração da cidade para palpitarem em uníssono, incendiados pela chama da tradição reveladora e mantenedora da história dos são-roquenses, muito superior a meras repetições ou mesmices.

Nossos agostos são povoados por encantos tantos, que não há quem por eles não se enfeitice:

Somente nós, no mundo inteiro, temos uma “Entrada dos Carros de Lenha”! E orgulhamo-nos por ser isso a mais pura verdade e não gabolice!

Os tradicionais carros de boi, que conferem nostalgia e saudades à Entrada dos Carros de Lenha (Foto: Simone Judica, 2015)

Não resistimos aos quitutes, doces ou salgados, simpaticamente servidos na quermesse e nas barracas das entidades beneficentes, sucumbindo todos à gulodice…

Reencontramos amigos e parentes queridos que a vida conduziu a outros destinos, próximos ou distantes, que aqui voltam recarregar as baterias do coração, da fé e da amizade, num arroubo de afeto pelos são-roquenses muito prezado, mesmo se olhos estranhos lhe imprimem contornos de pieguice.

É a época do ano mais propícia, pois, a matar e reavivar saudades: as inumeráveis voltas na Praça da Matriz e o contínuo subir e descer da Avenida Tiradentes rendem abraços, dedinhos de prosa ou longas conversas sobre coisas sérias, recordações ou bisbilhotices.

E como descrever as portas e os corações escancarados, no casarão da família Dias Bastos, onde amigos de sempre se juntam e celebram e emocionam-se e, ano após ano, com as mesmas alegria e ternura,  cantam a valsa “Como te lembro, São Roque” – composta pelo bloco carnavalesco Guarany, em 1930 – em um coro de vozes que vão da meninice à velhice?

“Homenagem às Festas de São Roque”, música composta pelo Grupo Carnavalesco do Guarany, em 1930, cantada todo 16 de agosto, no casarão da família Bastos. (Foto: acervo de Glauco Roque de Paula Santos)

Ao florir dos ipês amarelos há novenas no morro e na igreja, meninas de branco do Bando Precatório, tapetes idealizados pelo Vasquinho Barioni e feitos com serragem tingida no quintal da casa do Zé do Nino, procissões, espetáculos no palanque montado na praça, filmagens do José Henrique! Sem contar os foguetórios e o trânsito impedido, a despertar em muitos a rabugice…

Enquanto a Câmara Municipal comemora o 16 de agosto com ar sério e protocolar, homenageando cidadãos de destaque em Sessão Solene, o São Roque Clube celebra-o em bailes marcados por elegância, descontração e certa peraltice!

Agosto é tempo de vestir roupa nova, ouvir bandas executando “dobrados”,  sair do baile direto à alvorada na casa dos festeiros, descansar só um pouquinho e ir para a rua outra vez, passear, encontrar amigos, confeccionar e admirar tapetes, viver intensamente o dia 16 e, à noite, despedir-se da melhor fase do ano, a olhar os fogos colorindo o céu, mesmo que alguém diga que tudo isso está ultrapassado, é  bobagem, quiçá sandice!

Dos agostos de outrora, ficaram na memória o portal erguido entre o solar do Barão de Piratininga e o Bar Chic,  o disputado concurso das “Bonecas Vivas”, o leilão de animais na Praça da Matriz, o parque de diversões no Largo dos Mendes, com serviço de alto-falante para oferecimentos musicais, as bonecas caprichosamente vestidas pelas mulheres prendadas e rifadas na quermesse e a corrida de cavalinhos, deslumbrando a meninada e promovendo nos adultos deliciosos acessos de criancices!

Essas são as tão nossas e tão preciosas “agostices”!

São únicas! Desfrute-as todas e nunca as desperdice!

Obs.: A crônica rimada “Agostices” foi escrita no ano de 2013 e publicada no jornal “O Democrata”.

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* Simone Judica é advogada, jornalista e colunista do site www.vanderluiz.com.br (simonejudica@gmail.com)

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