SIMONE JUDICA - SÃO-ROQUICES

“SE ESSA RUA FOSSE MINHA” – AV. GETÚLIO VARGAS

O alerta de curva, escrito no chão, não inibe o excesso de velocidade por parte de inúmeros motoristas (foto: Simone Judica)

 Por: Simone Judica*

            Não fosse o fato de que “o anjo do Senhor acampa ao redor dos que O temem e os livra”, conforme garante o rei Davi no livro dos Salmos, meus leitores não estariam a ler este artigo e, quiçá, a coluna São-roquices passaria a ser apenas um registro nas páginas da memória e da história de São Roque.

Na última quinta-feira, segundo dia deste novo ano, fui a pé visitar minha mãe. Na volta, cerca de 14h10, caminhava pelo lado par da calçada da Av. Getúlio Vargas, rumo à Praça da República, quando, de súbito, na altura do número 230, uma motocicleta – barulhenta, veloz e mal governada – veio em minha direção.

Numa fração de segundo tive a sensação de que ela me atingiria em cheio e, sem que houvesse tempo para pensar em esquivar-me, vi-me praticamente colada à parede da casa enquanto o motoqueiro desaparecia da minha vista, em fuga. É bom explicar que esse local é o ponto mais fechado de uma curva bastante acentuada, de modo que eu não poderia ver quem subia a rua e o motoqueiro não tinha visão que lhe permitisse saber que uma pedestre estava descendo, pela calçada.

Curva acentuada da Av. Getúlio Vargas, palco de muitos acidentes (foto: Simone Judica)

Portanto, creiam ou não meus leitores, tenho para mim que fui poupada do atropelamento pela intervenção divina. Afinal, onde me encontrava era impossível ver a moto e pensar numa alternativa para escapar dela.

Devido à formação das calçadas da Av. Getúlio Vargas, em sua maioria irregulares, quebradas, com degraus, desníveis e mato abundante, custo a acreditar que o tal motoqueiro estivesse trafegando de propósito pelo passeio público. Assim como muitos outros, deve ter subido a rua em alta velocidade e não conseguiu conter o veículo na pista quando chegou à curva do número 230, o que o fez invadir o local destinado aos pedestres.

Essa curva é palco constante de manobras perigosas e não são poucos os motoristas que avançam sobre a calçada. Diversas vezes o muro da residência ali existente já foi atingido e derrubado em acidentes perigosos, nos últimos anos.

Não é de hoje que a situação lastimável da Av. Getúlio Vargas está a merecer considerações e reivindicações. Quase haver sido ali atropelada foi a gota d’água que faltava para transbordar a taça do coquetel de paciência e tolerância que costumo sorver antes de escolher os temas para a coluna São-roquices.

No centro da cidade, a Av. Getúlio Vargas, em seus quase 700 metros de extensão, abriga excessivo número de problemas gravíssimos, que põem em risco a vida, a integridade física e o patrimônio de tantos quantos por ali residem e transitam a pé ou em veículos de quaisquer tipos.

Os problemas vão de um extremo a outro da avenida e trecho algum é poupado.

Semáforos e sinalização

Os semáforos existentes no cruzamento que envolve a Praça da República, a Av. Getúlio Vargas e as Ruas Santa Quitéria, Barão de Piratininga e Paulino de Campos constantemente apresentam defeitos e permanecem por longas horas apagados ou com apenas luzes amarelas a piscar, de forma a dificultar o ininterrupto tráfego do local e a proporcionar inúmeras oportunidades para colisão de veículos e atropelamentos.

Os motoristas igualmente apresentam defeitos, pois insistem em aproveitar os derradeiros segundos da cor amarela e, com isso, quase provocam colisões e prejudicam quem tem a vez de cruzar as ruas, pois as filas de veículos não fluem como deveriam.

Motoristas desatentos e desobedientes à nova sinalização tumultuam  cruzamento entre a Praça da República, a Rua Santa Quitéria e a Av. Getúlio Vargas (foto: Simone Judica)

Recentemente o setor de trânsito da Prefeitura de São Roque introduziu uma modificação nas regras do trânsito do local, a fim de organizar uma fila dupla dos veículos provenientes da Praça da República. Pela nova sinalização, os motoristas que param do lado direito devem contornar a praça ou seguir pela Rua Santa Quitéria, enquanto aqueles que estão na fila do centro devem subir a Av. Getúlio Vargas.

A nova regra é boa, mas os motoristas, em sua maioria, continuam a contornar a praça ou subir a Av. Getúlio Vargas a seu bel prazer, ignorando a nova sinalização. Com isso, na maior parte do tempo  dois carros querem avançar para a avenida de uma só vez e por pouco não se abalroam.

Se essas afirmações parecem exagero, basta postar-se por alguns minutos no local para ver o perigo de perto. Garanto bons sustos aos observadores.

Traçado sinuoso e excessos de velocidade

O traçado da rua, típico do relevo de São Roque, com declives, aclives e trechos sinuosos, por si só exige redobrada cautela por parte dos motoristas. E, além disso, uma série de outros fatores faz a Av. Getúlio Vargas ainda mais perigosa.

Além das imediações do número 230, outros locais apresentam péssimas condições para se dirigir e manobrar, como nas proximidades do prédio da Cambuci, onde é comum haver gigantescos caminhões estacionados durante horas, obstruindo totalmente a visão de quem desce a rua no sentido Centro e expondo os ocupantes dos veículos ao perigo de colisão frontal com quem segue rumo à Rodovia Raposo Tavares.

Carros estacionados sobre a calçada são comuns em ambos os lados da Av. Getúlio Vargas (foto: Simone Judica)

Em outros trechos, entrar e sair de garagens é tarefa quase impossível, devido à velocidade exagerada com que motoristas circulam pela rua e, ainda, em razão do farto número de veículos estacionados sobre as calçadas, a bloquear totalmente a visão de quem necessita entrar ou sair de suas residências.

Moradores da Av. Getúlio Vargas estão habituados a ouvir pneus a cantar e o ruído provocado por freadas bruscas, ambos produtos do exagero na velocidade.

Estacionamentos irregulares e falta de fiscalização

A prática de estacionar sobre as calçadas, embora considerada infração grave e passível de multa nos termos do Código Brasileiro de Trânsito, autorizadora, inclusive, da remoção do veículo pela autoridade competente, torna-se a cada dia mais comum na Av. Getúlio Vargas, já que à falta de bom senso e de respeito dos condutores soma-se a omissão dos responsáveis pelo setor de trânsito e seus agentes, nunca vistos no local para promover medidas fiscalizadoras.

Quando não se encontram vagas para estacionar na rua, os motoristas sem pestanejar colocam seus carros e motos sobre as calçadas ou param-nos na contramão, até mesmo em locais proibidos.

Calçadas e até trechos em que é proibido estacionar, na contramão de direção, são utilizados como estacionamento (foto: Simone Judica)

O estacionamento indevido de veículos também é rotineiramente observado no início da avenida, onde diversos carros e caminhões são deixados, muitas vezes avançando sobre os trechos sinalizados em amarelo que, teoricamente, proíbem que se pare no local.

Parados em locais inapropriados, esses veículos tornam o tráfego ainda mais difícil, pois, em já não sendo a rua suficientemente larga, muitas vezes os motoristas são obrigados a parar para dar passagem a quem vem em sentido contrário. Isso, porém, nem sempre é tão simples de ser executado, já que há um semáforo a nortear o sentido do trânsito e quem está passando sob a luz verde corre o risco de, ao parar, ser atingido pelo veículo que vem atrás.

Pondera-se que, em não havendo fiscalização, as infrações de trânsito e administrativas vão se multiplicando à larga, sempre em prejuízo das muitas pessoas que moram ou transitam pelo local.

A aventura de andar a pé

Andar a pé pela Av. Getúlio Vargas exige coragem, concentração e preparo físico, seja do lado par ou do lado ímpar.

O estado deplorável de grande parte das calçadas, danificadas e tomadas pelo mato, faz com que o pedestre tenha de aventurar-se pelo meio fio e não raro pelo leito carroçável da rua, onde fica ainda mais vulnerável a atropelamentos.

 

O mato integra as calçadas em ambos os lados da avenida, dificultando a passagem dos pedestres (foto: Simone Judica)

Se quiser permanecer na calçada, em alguns pontos precisa saltar touceiras e buracos, subir e descer rampas e degraus, desviar-se de muros e cercas que tombam sobre o passeio público. Em outros trechos é necessário evitar o matagal que vem dos terrenos baldios.

Próximo ao Detran, matagal invade calçadas e obriga pedestres a caminharem pela rua (foto: Simone Judica)

Um portador de necessidades especiais com dificuldades de locomoção está proibido de percorrer as calçadas da Av. Getúlio Vargas.

Perigos de alto a baixo: dos bueiros aos postes

            A lista de perigos da Av. Getúlio Vargas também contém um ponto de ônibus vizinho de um bueiro. Não haveria mal algum se a manutenção do local fosse adequada. Porém, não é o caso.

Passageiros de ônibus embarcam e desembarcam em ponto ao lado de um bueiro destampado, no início da Av. Getúlio Vargas (foto: Simone Judica)

A parada de ônibus está instalada no primeiro trecho da avenida, do lado ímpar, logo acima da Praça da República. Os passageiros embarcam e desembarcam perto de um bueiro há muito tempo destampado e, se não estiverem atentos, caem num grande buraco. A  tampa está há meses à espera de que o setor competente da Prefeitura promova o reparo.

Boca do bueiro, sem tampa, é uma perigosa armadilha para os pedestres (foto: Simone Judica)

Os outros dois bueiros das imediações estão tampados, porém, sujos e afundados, prestes a provocar acidentes contra os muitos pedestres que por ali circulam.

Outro bueiro, embora tampado, apresenta sujeira, mato e irregularidade no asfalto de seu entorno (foto: Simone Judica)

Quem dera se o perigo estivesse apenas na terra. Também cai do céu, como aconteceu ontem (2), quando o tempo virou para chuva, ao final da tarde, e o vento  derrubou parte de uma estrutura de madeira e pesadas peças isolantes de cerâmica de um dos postes localizados no lado par da rua, na altura do número 80.

Pedaços de madeira e cerâmica caíram de um poste no dia 2 de janeiro (foto: Simone Judica)

Se houvesse atingido uma pessoa, não duvido que o acidente fosse fatal. Se o golpe fosse sobre um carro ou moto, o estrago seria dos grandes.

Moradores do local encostaram as peças espatifadas no poste e é possível notar que a madeira está apodrecida. Ao olhar para cima, vê-se o restante da estrutura no alto do poste, prestes a despencar a qualquer momento.

Madeira e cerâmica que caíram de um poste, na Av. Getúlio Vargas, no dia 2 de janeiro (foto: Simone Judica)

A CPFL deve apressar-se em tomar providências para evitar que outros acidentes como esse aconteçam. Já passa da hora de substituir essas estacas de madeira podre.

O restante da estrutura de madeira e outras peças de cerâmica prometem cair a qualquer momento (foto: Simone Judica)

Buracos e defeitos no asfalto

A Av. Getúlio Vargas foi recapeada em dezembro de 2012, como uma das últimas providências do então prefeito Efaneu Nolasco Godinho, ao apagarem-se as luzes de seu último mandato.

O serviço, todavia, foi péssimo, pois poucos meses depois a camada de asfalto estava deformada e eram muitos os desníveis que se viam desde a Praça da República até a Rodovia Raposo Tavares.

De lá para cá, fazem-se remendos e o resultado, obviamente,  não é dos melhores e não condiz com a intensidade do tráfego e a importância da avenida, que é uma das portas de entrada e saída da cidade, abriga residências, edifícios, indústrias, comércios e repartições públicas, como o Detran, além de dar acesso ao prédio da Justiça do Trabalho e ser caminho de quem vai do hospital da Unimed para a área central de São Roque.

Por causa de buracos, os motoristas se veem obrigados a invadir a contramão de direção, o que é extremamente propício a causar acidentes.

 “Se essa rua fosse minha”

A Av. Getúlio Vargas, além de um manancial de problemas urbanos e exemplo de fiscalização e manutenção insuficientes, é apenas a primeira rua a ser descrita pela coluna São-roquices na série “Se essa rua fosse minha”, como forma de chamar a atenção dos responsáveis pela solução dos problemas e, também, com a intenção de conscientizar os moradores e proprietários de imóveis para que cuidem de suas calçadas, obedeçam às normas do trânsito e comportem-se com civilidade.

Nem tudo é culpa do poder público e das empresas prestadoras de serviços essenciais.

Além do mato, uma placa torta compromete a aparência da Av. Getúlio Vargas, porta de entrada e saída da cidade (foto: Simone Judica)

Manter terrenos e calçadas limpos e capinados, estacionar veículos nos locais lícitos e dirigir com prudência e responsabilidade são ações que competem à população.

“Se essa rua fosse minha”, eu gostaria que ela estivesse limpa, bem conservada e sinalizada de maneira correta, assim como gostaria que aqueles que por ela transitam, a pé ou em veículos, tivessem um comportamento civilizado para não comprometer seu asseio e sua segurança.

Entre em contato com a coluna São-roquices e indique ruas que precisam de um bom trato. Neste ano, eleitoral, há chances de que os reclamos sejam atendidos.

Quem se incomodar com as cobranças e denúncias que estão por vir na coluna São-roquices, provavelmente ao concluir a leitura deste texto já estará lamentando o fato de o atropelamento não haver se consumado…

Reclame com o anjo.

* Simone Judica é advogada, jornalista e colunista do site www.vanderluiz.com.br (simonejudica@gmail.com.br)

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Advogada e jornalista.

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