Nota de falecimento. Arlindo Carlini, 91 anos

Morreu nesta quarta-feira (24), Arlindo Carlini (91 anos) pessoa de grande relacionamento na cidade por conta de atividades profissionais e da ligação com o esporte.

Era casado com Romilda Carlini com quem teve cinco filhos Nancy, Jair, Inêz, Graça e Lourdes. Deixa oito netos André Luiz, Paulo César, Ricardo, Tiago, Carlos Eduardo (Duda), Marcelo, Lívia e Mariana e a bisneta Catarina.

Arlindo Carlini (1926/2018)

O corpo está no Velório Municipal e o sepultamento será nesta quinta-feira (25) no cemitério da Paz.

Nascido em Amparo-SP (4 de setembro de 1926), morou em Santo André por dois anos e residia em São Roque desde 1944. Gostava de contar histórias do tempo em que jogou futebol.

A família montou uma ferraria na Avenida Tiradentes e também forjava ferramentas. Carlini comentava que muitas vezes foi a São Paulo vender produtos para as lojas da Florêncio de Abreu no centro de São Paulo

Particularmente sempre lembro dele – e continuarei a lembrar – como administrador do estádio municipal Quintino de Lima quando comecei a narrar futebol na Rádio Universal de São Roque em 1983.

Toda tarde de domingo lá estava ele sentado em frente da administração de olho no campo.

Cuidava do gramado com tanto carinho que não era fácil conseguir a liberação do estádio para jogos que não fossem de campeonatos. Até mesmo o Paulistano na fase profissional tinha dificuldades para usar o gramado para o treino final na véspera dos jogos.

Lembro também de seo Carlini nos Jogos Regionais de Presidente Venceslau em 1984. O prefeito Mário Luiz decidiu que a cidade seria representada por atletas que alcançassem índice.

Para não ser penalizado em competições futuras, São Roque compareceu somente com três ou quatro atletas da natação.

Fui entrevistar os meninos da natação no alojamento de São Roque que deveria ocupar no máximo dois quartos do prédio ontem também estava a delegação de Rancharia.

Em 12 de março de 2004, publiquei uma reportagem na coluna Galeria do Jornal da Economia quando Arlindo Carlini falou da grande rivalidade existente no futebol de São Roque entre São Bento x Atlético.

Abaixo a reprodução da reportagem.

Arlindo Carlini destaque da coluna Galeria do Jornal da Economia 2004

São Bento e Atlético: a rivalidade do futebol sanroquense

A rivalidade entre São Bento e Atlético marcou o futebol são-roquense por 30 anos. No entanto, são raros os documentos do período.

O livro Projeto Memória editado por Ayr Silveira (1989) registra que o Esporte Clube São Bento foi fundado em 10 de março de 1918 com as cores verde e branco com sede social na rua XV de Novembro.

O tradicional campo do São Bento ficava na região central Avenida Antonino Dias Bastos na altura da rua Comendador Inocêncio.

O São Roque Atlético Clube surgiu poucos meses depois (20 de junho de 1918) com uniforme preto e branco, sede social na Praça da Matriz e mandava seus jogos na Vila Aguiar (atual Paulistano).

Aos 77 anos (4 de setembro de 1926), Arlindo Carlini tem boas recordações dessa rivalidade. Nascido em Amparo (SP), chegou a São Roque em 1944 depois de morar dois anos em Utinga (Santo André).

Na região da ABC, jogava de quarto-zagueiro na Lanamet (Laminação Nacional de Metais) onde também trabalhava.

Viemos para São Roque a convite do tio Mário. Ele entendia que a cidade precisava de uma boa ferraria e meu pai (Ricardo) entendia desse serviço.

Na Avenida Tiradentes tinha uma ferraria fechada, conversamos com o Lula (Álvaro Dias de Góes) que era o proprietário do terreno. Ele falou que a gente poderia começar no dia seguinte. Vocês ficam aí e pagam como quiser”.

Foi um estouro. A turma não estava acostumada com gente boa no ofício”, lembra Carlini.

Foi também por iniciativa do tio que Carlini seguiu com o futebol.

“Ele me apresentou ao técnico do São Bento, o Francisco Paco. Treinei no terceiro quatro. No intervalo, fique sabendo que passaria para o segundo quadro.

Irmãos em times diferentes

Jogava ao lado de Mingo (goleiro), Nico (Nelson do Prado), Tesourinha, Neguinho e Mique”.

Por outro lado, o irmão Carlos jogava no rival Atlético. Assim, Carlini virou Carlinão e o irmão passou a ser chamado de Carlininho.

AMADORISMO MARRON

A disputa era tão acirrada que alguns jogadores recebiam ajuda financeira, principalmente os que vinham de outras cidades.

“Era um fanatismo com São Bento, Atlético, América, CASM, Portuguesa do Taboão, Estrela do Marmeleiro.”

“Rino Boccato, Alfredo Valente, João Diguá, Francisco Verani e seu filho Mário Verani eram alguns dos diretores do São Bento. No Atlético, o Alfredo Salvetti era o chefão”, diz Carlini.

Na véspera de jogos decisivos o São Bento ficava concentrado no Hotel Santos, na Praça da Matriz.

Depois de quase dois anos, finalmente Carlini ganhou uma chance no primeiro quadro. Foi quando conheceu melhor a rivalidade do futebol de São Roque.

“Estava concentrado com os titulares para a decisão com Campeonato Municipal de 1946. Na hora do almoço fui avisado pelo técnico Paco que jogaria.”

“Quis saber o motivo. Ele disse que era problema da diretoria. Depois fez a revelação. O lateral esquerdo Pinhácora, que vinha da Barra Funda, estava namorando a filha de um diretor do Atlético e tinha almoçado na casa do adversário. Já estava comprado… (risos)”.

Carlini reconhece que deu tremedeira. Afinal, jogaria ao lado dos “cabeças” do time: Juquinha, Bid e Mulata; Barroca, Armando Canhoto e ele na lateral esquerda; Antenor (vinha de Cotia), Chicão (outro jogador da Barra Funda) e Vasquinho (irmão do Chicão); Hermínio e Cunha.

“O Atlético foi campeão. Venceu por 1 a 0, gol de pênalti. Eu cometi o pênalti. Quer dizer, não fiz. Eu fui dar uma devolvida e ela picou. Subiu no braço. O juiz Sílvio del Debbio, que vinha da Federação Paulista, marcou. Ele já estava comprado, todo mundo viu. O gol deve ter sido feito pelo Galinha”, recorda.

À noite, depois da perda do título, Carlini estava descendo a rua XV de Novembro quando foi chamado pelo conhecido Zezé da Farmácia.

“Pensei que ele daria uma bronca, mas me deu um envelope e explicou que tinha sido feita uma arrecadação para dar um prêmio para os jogadores. Ele disse, perdemos, mas não tem problema, você vai receber a mesma a coisa.

Fomos para o Hotel Boschini (hoje Casas Pernambucanas) comer bife à cavalo e tomar cerveja. Deu para pagar a janta para a turma toda do segundo quadro”.

Zezé da Farmácia era José de Lima, fundador da Farmácia São José em 1929.

O namoro do Pinhácora não deu certo e ele voltou a se acertar com a diretoria do São Bento, mas Carlini não perdeu o contato com a turma do primeiro quadro.

“Passou a ter um revezamento, às vezes entrava no segundo tempo. Joguei no São Bento até 1950, inclusive como goleiro”.

No final da década de 40, o Atlético encerrou atividades. No São Bento, também ocorreram mudanças.

“Saíram alguns dos diretores que davam sustentação financeira. Até que no fim de 1949 houve uma derrubada de nossa diretoria.

Estávamos acostumados a ganhar, deixamos o clube em solidariedade aos companheiros Domingos Sarti, Guido Tortato e outros”.

Esse rompimento foi decisivo para a o futuro do São Bento. Carlini e seus amigos partiram para a fundação do Clube Atlético Paulistano. Mas essa é uma história reveladora que Galeria apresentará na próxima edição.

Mas como estou entrando de férias, o nosso próximo encontro será dia 16 abril.

São Bento, final da década de 40: Mingo, Arlindo Carlini, Remo Sasso, Danilo Bellini, Primo, Zequinha, Rubens Bellasalma, Féi (Rafael Júdica), Nico, Liminha e Toninho Tozzi

Nota da redação

Preciso fazer uma consulta mais apurada, mas tenho a impressão que esta foi a última coluna que publiquei no Jornal da Economia. Voltei a escrever em 2.015 mas por um curto período.

Por isso, que não foi contada a participação de Arlindo Carlini na fundação do Paulistano.

Carlini relatou que por conta da ferraria da família ele tinha contato com o diretor da Brasital, Alberto Randi, que tinha vários cavalos cuidados por Marcílio Montebello.

Disse que sugeriu a Randi que cedesse o campo do Atlético que ficava em terreno da Brasital para um grupo de jovens que tinha montado um time.

Segundo Elilio Franceschi, em entrevista à coluna Galeria em maio de 2000, o Paulistano nasceu de um grupo de amigos com o nome de Juvenil Paulistano e que ganhava espaço na cidade, mas não era um clube com registro.

Treinava no campo de Atlético no sábado à tarde e podia mandar jogo um domingo por mês.

Em 1950, houve uma greve na Brasital e uma das exigências do Sindicato dos Tecelões, Joaquim Moya, foi a cessão do campo para o Paulistano que contava com funcionários da Brasital.

Para tanto o Paulistano precisava montar uma diretoria. Assim, o Tricolor da Vila Aguiar foi fundado oficialmente no dia 28 de novembro de 1950 na casa de Marcílio Montebello.

O primeiro presidente foi Antonio Franceschi pai de Elilio.

No entanto, a Brasital determinou que a diretoria tivesse somente funcionários da tecelagem.

Arlindo Carlini contou que se esforçou para que o terreno fosse cedido ao Paulistano, mas que não apareceu entre os fundadores do Paulistano da Vila Aguiar por não ser funcionário da Brasital.

Vander Luiz

São-roquense, radialista e jornalista

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